Velhices e Vulnerabilidades Sociais por Cor e Gênero

Mulheres idosas de cor preta e parda em um ambiente comunitário, simbolizando a pesquisa sobre velhices e vulnerabilidades sociais.

O estudo das velhices, especialmente sob a perspectiva de vulnerabilidades sociais e programáticas, revela aspectos cruciais que merecem atenção. O projeto “Diversidades na Velhice” focou em mulheres idosas, de cor preta e parda, residentes em uma comunidade da zona sudeste de São Paulo, abordando questões que ainda são pouco exploradas no Brasil. Com a colaboração de Ruth G. da Costa Lopes, Bruno Daniel Carvalho Ferrarini, Vitoria Cristina Silva De Souza e Úrsula Niceia Angelim Novais, a pesquisa buscou dar voz a um grupo de 58 mulheres, discutindo como a cor da pele e o gênero impactam a experiência do envelhecimento.

A Vulnerabilidade Social e suas Interseccionalidades

Na literatura acadêmica, a vulnerabilidade tem sido frequentemente analisada sob uma ótica biológica, negligenciando a influência de fatores como cor da pele e gênero. Este estudo propõe uma visão que considera as interseccionalidades das experiências de vida das idosas, evidenciando como as relações entre diferentes grupos populacionais afetam as mulheres negras e pardas. Essa dinâmica cria um cenário complexo de desigualdade, conforme indicado por Akotirene (2019), onde categorias como sexo, gênero e etnia se inter-relacionam, formando um sistema de opressão.

A vulnerabilidade social é, portanto, entendida como um reflexo das condições sócio-histórico-culturais que moldam a qualidade do envelhecimento. Questões como racismo, patriarcado e ageísmo são abordadas, destacando como essas estruturas sociais impactam tanto a vulnerabilidade biológica quanto a programática. O estudo avaliou como as instituições, principalmente as de saúde, muitas vezes reproduzem condições de vulnerabilidade em vez de mitigá-las, conforme apontado por Campos, Tchalekian e Paiva (2020).

Impacto do Ageísmo nas Mulheres Idosas

A pesquisa revelou que o tratamento do envelhecimento como uma experiência homogênea pode resultar na omissão das necessidades específicas de mulheres idosas negras e pardas. O ageísmo, que se refere ao preconceito e discriminação relacionados à idade, é uma fonte significativa de estresse para essas mulheres, que frequentemente são percebidas como incapazes e dependentes. Este fenômeno foi mensurado por meio da Ageism Survey (Couto, 2007), evidenciando que as mulheres pretas enfrentam um nível ainda mais elevado de discriminação em relação às pardas, refletindo uma sociedade que perpetua estigmas.

Contrariamente à percepção comum de que envelhecer está intrinsecamente ligado à doença e à fraqueza, o estudo da OMS (2021) e da CEPAL (2017) argumenta que muitas mulheres idosas são independentes e perfeitamente capazes de cuidar de si mesmas. No entanto, a realidade muitas vezes se traduz em desconforto e estresse, resultantes da infantilização e da paternalização que essas mulheres enfrentam, levando a situações de violência sutil que minam sua autonomia.

Violências Sofridas e a Realidade das Mulheres Idosas

Os dados coletados indicam que a violência intrafamiliar é uma experiência comum entre as participantes da pesquisa. Aproximadamente 40% das mulheres relataram sentimentos de solidão, e 34,5% expressaram desgosto em relação a familiares. As formas de violência variam desde agressões físicas e verbais até a negligência e a privação econômica. Esses tipos de violência são frequentemente invisíveis, perpetuados por dinâmicas familiares que ainda carecem de conscientização e intervenção.

Além disso, o contexto social e econômico desempenha um papel crucial. As mulheres que residem em comunidades enfrentam não apenas a violência doméstica, mas também a violência gerada pelo tráfico de drogas e a insegurança pública, que exacerba a vulnerabilidade e o sofrimento. Dados do IBGE (2019) revelam que a cor da pele impacta diretamente nas condições de moradia, com uma probabilidade muito maior de pessoas pretas ou pardas viverem em áreas precárias.

Resiliência e Enfrentamento das Adversidades

Apesar das adversidades, as mulheres do grupo demonstraram um elevado grau de resiliência, uma característica fundamental para a adaptação a ambientes desfavoráveis. A resiliência foi avaliada por meio de uma escala (Pesce et al., 2014), revelando que aquelas que vivem sozinhas possuem pontuações mais altas em comparação às que moram com familiares, o que sugere que a harmonia nas relações familiares é um fator crucial para o bem-estar psicológico.

A pesquisa sugere que as experiências de vida e as relações interpessoais desempenham um papel significativo na capacidade das mulheres idosas de enfrentar desafios. Assim, o fortalecimento de vínculos significativos e o suporte social se mostram essenciais na promoção de uma velhice saudável.

Assim, este estudo não apenas ilumina a necessidade de considerar as especificidades das experiências de mulheres idosas pretas e pardas, mas também destaca a importância de intervenções que abordem as múltiplas dimensões da vulnerabilidade e promovam um envelhecimento mais justo e digno.

Referências

AKOTIRENE, C. Interseccionalidade. São Paulo: Jandaira, 2019.

CAMPOS, B.; TCHALEKIAN, B.; PAIVA, V. Violência Contra a Mulher: Vulnerabilidade Programática em Tempos de Sars-Cov-2/Covid-19 em São Paulo. Psicologia e Sociedade, n.32, 2020.

OMS. Global campaign to combat ageism. Global report on ageism. Genebra: WHO, 2021.

IBGE. Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil. Informação Demográfica e Socioeconômica n.41, 2019.


Observação Importante: As informações aqui apresentadas não substituem a avaliação ou o acompanhamento profissional. Sempre consulte um médico ou especialista em saúde para orientações personalizadas.

Rolar para cima